Friday, November 9, 2007

Boiling Point

Serei eu a única pessoa à face da terra que já não consegue suportar o sufoco do mercado vídeo lúdico dos dias de hoje? Todos os dias abro caixas de novos lançamentos, desejoso de que as previsões feitas em dezenas de websites e revistas tenham sido um enorme equívoco e que, afinal, os jogadores estão interessados em produtos novos e originais. La grande illusion: só vejo FPS.

Call of Duty 4, Timeshift, Halo 3, Bioshock, Medal of Honor Airborne, Half Life Orange Box, já para não mencionar as recargas de Counter Strike Anthology e Source. É tradição no PC, sim. Pela variedade fenomenal que as consolas têm vindo a oferecer ao longo dos tempos, muitos como eu têm encontrado um porto de abrigo enquanto continuam a investir, económica e intelectualmente, nesta jovem indústria. Mas fere-me a vista olhar para o escasso catálogo de jogos da XBOX 360 e ter de me esforçar tanto para encontrar uns poucos títulos que não se enquadram no género FPS, Desporto ou Condução. Ao que é que nós chegámos?

Ver a Playstation 2 a abandonar sorrateiramente o mercado também evoca um sentimento de tristeza inconsolável. Foi a consola de maior sucesso comercial de sempre e agora, quase fechadas as contas, podemos afirmar que foram poucos os títulos exclusivos deste género pelos quais a consola se destacou ou reclamou grandes lucros. Com a excepção de Killzone, mais um objecto de debate do que um êxito comercial, apenas encontramos jogos multi-plataforma - sublinho Black ou TimeSplitters.

É toda uma questão muito complexa e diversificada, talvez merecedora de maior atenção num futuro próximo. A saturação, essa, pode ser irreversível. Tento compensar esta exagerada manobra rumo à popularização dos jogos com pequenas, mas sinceras, investidas, como as que podem encontrar no maravilhoso universo de Ferry Halim - ORISINAL.

4 comments:

Artur said...

Não, meu caro, não és o único. Infelizmente, eu creio que não é só é uma tendência demasiado forte do mercado. É também uma tendência extremamente conveniente, dada a cada vez maior proximidade entre o virtual dos jogos e a realidade do campo de batalha. Do "play again?" nos jogos passamos ao "cannon fodder" no Iraque - game over!

Dieubussy said...

Outra questão de relevo, a extrema parcialidade com que os videojogos recriam os campos de batalha. Sem contar com uns poucos jogos de história alternativa, onde podemos jogar com outros exércitos, tudo faz parte de uma campanha de apelo às armas - admitida pelo exército Norte-Americano.

Compreendo que alguns jogos queiram explorar o campo de batalha - e é um cenário tão válido como qualquer outro. Jogos de combate, jogos de estratégia... mas o que é feito das representações inteligentes da guerra, com sentido de humor e moral de suporte?

Ainda estou a aguardar pelo Thin Red Line dos jogos de guerra - um excelente conceito, creio eu, que poderia aprofundar os dramas de um soldado deste o abandono do seu meio social até à reintegração. Ou então um jogo que explorasse as motivações por detrás de ataques terroristas. Algo substancial, porque não?

Já não basta de encarnar GI Joes?!

Carlos Figueiredo said...

Olhando para os videojogos disponíveis no mercado actual ficamos com a sensação de que onde começa a história (ou "substância") acaba o entretenimento. É impressionante como um género tão limitado como o FPS tem tido tal expansão. A asfixia criativa é gritante e o mais preocupante é que os antigos quadrantes (Japão, Europa e alguns nichos nos EUA) de onde surgiam conceitos estimulantes para o mercado dos videojogos, estão agora preocupados apenas com a auto-preservação.
Vejam-se casos como o da Nintendo que atingiu enorme sucesso com a DS e a Wii, plataformas originais sem dúvida, mas onde os catálogos são parcos ou repetitivos vivendo de intermináveis listas de sequelas. São poucas as programadoras onde podemos depositar as nossas esperanças. Empresas como a Konami ou a Capcom estão apenas interessadas em jogar pelo seguro apostando em produtos de sucesso confirmado. Resta a esperança em algumas programadoras francesas e do leste europeu, mas cuja pequena dimensão nos faz temer pela sua sobrevivência - um insucesso comercial será certamente fatal.

Artur said...

Concordo com o que o B. disse sobre a parcialidade dos FPS. Joga-se sempre do mesmo lado, supostamente vencedor ou "justo", e nunca há a menor possibilidade de mudar de lado. Queria só ressalvar o facto da maioria dos jogos de estratégia ser um pouco mais flexível que isso. Lembro-me, por exemplo, da série Panzer General, em que se podia tomar conta de ambos os lados da barricada. Aliás, apesar das premissas culturais se manterem nos jogos de estratégia, deixam um pouco de espaço à criatividade do jogador.
Quanto aos progamadores, como não têm subsídios, como o cinema, têm de fazer pela vida e saturam o mercado com lixo. Na verdade, é um milagre ainda haver estúdios a produzir coisas originais. Cryo R.I.P.