Aprecie-se ou não a grande companhia que é a Nintendo, não há como negar que a história dos videojogos, nos seus últimos 30 anos, se confunde com a história dessa companhia individual, cuja expansão além fronteiras se projectou num mercado dominante que subsistiu até hoje. Após um profundo e abrangente account de David Sheff nos inícios de 90, com especial afecção pela luta de Minoru Arakawa, Yoko Yamauchi e Howard Lincoln na divisão Norte-Americana, Fiorent Gorges e Isao Yamazaki escrevem "L'Histoire de Nintendo": uma série de livros separados em diferentes volumes, cada qual contendo diferentes épocas da companhia. O primeiro volume, como está à vista, abrange as raízes da empresa, tipologias de cartas criadas durante a era Fusajiro, assim como os brinquedos e jogos sociais, arcades e primeiras consolas domésticas. A sua qualidade, no que diz respeito a apresentação e conteúdos, suplanta largamente a média das publicações actuais, apresentando-se como uma leitura acessível, informada e vastamente ilustrada ao longo de mais de duzentas páginas. O livro de Gorges está, desta forma, destinado a tornar-se uma referência dentro do seu campo, e por esta mesma via um recurso incontornável em qualquer biblioteca sobre a fascinante disciplina que é a História dos jogos de vídeo.
(O meu agradecimento ao Mikaveli por me ter chamado a atenção para esta série de livros. Obrigado!)
Nos tempos da Atari, a política era muito clara: fazer do jogo a super-estrela, em oposição ao engenheiro que o criou. Eram anos 70 e os jogos procuravam afirmar-se no mercado não havendo, simplesmente, espaço para tornar cada engenheiro e cada criativo numa celebridade, fenómeno que algumas estrelas dos videojogos procuram hoje. No cinema temos os actores, na música os cantores... confere-se a importância ao lado humano, aquele que pode ou não depender do respeito e admiração dos outros.
Na coregaming lutamos para dar a conhecer os responsáveis dos jogos, os seus talentos e funções, as suas obras e projectos. Não concordamos com o estatuto de celebridade auto-proclamado e, se de facto existem vedetas dos videojogos, é de concordar que o são por mérito próprio.
Shigeru Miyamoto, o mais respeitado do seu ramo, nem sempre foi o homem atarefado e requisitado dos dias de hoje. Tempos houve em que até ele mostrava aversão aos computadores e electrónica. Mas as suas criações na Nintendo foram memoráveis e Hiroshi Yamauchi cedo se apercebeu do talento dele e da sua equipa. O receio de tornar os seus prodígios em vedetas está testemunhado de uma forma fantástica nos créditos dos primeiros grandes jogos de Miyamoto, onde o seu nome era encoberto e transformado num inteligente S. Miyahon. Acredita-se que a razão principal para esta mudança era o receio de que alguma outra empresa quisesse raptar algum dos seus cérebros.
Tal é o exemplo de Zeruda No Densetsu (THE LEGEND OF ZELDA).
Em japonês, Shigeru Miyamoto escreve-se (em kanji) da seguinte forma: 宮本 茂. O caracter para MOTO também pode ser lido como HON, daí a mudança para Miyahon, que tornava quase impossível qualquer associação. Ten Ten corresponde a Takashi Tezuka e Konchan a Koji Kondo.
A saga das alcunhas continua em Zelda II: Riinku no Bouken (ZELDA II: THE ADVENTURE OF LINK). Desta vez, até a inicial S - de Shigeru - foi omitida e Miyamoto é reduzido a um ainda menos elucidativo Miyahon. Por esta altura, Mario, Link e Donkey Kong eram vedetas de televisão, verdadeiros ícones da cultura popular japonesa e mundial. Seria até possível que uma família vizinha de Miyamoto fosse fã dos seus jogos e ignorasse que o seu ídolo vivesse dois andares acima.
Hoje em dia seria impensável que tal acontecesse. É certo que alguns artistas preferem mascarar-se por detrás de alcunhas que eles próprios escolhem. Porém, este caso parece ser mais uma questão de imposição - nomeadamente de Yamauchi, o único elemento a poder mostrar uma face associada a um nome na empresa de Kyoto. A brincadeira parece ter terminado a partir da geração 16-Bit, onde o nome de Miyamoto brilhava na sua íntegra quer em SUPER MARIO WORLD (título americano), quer em THE LEGEND OF ZELDA: LINK TO THE PAST.